sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Um cara sem sorte - Capítulo 8

Quando acordou, o publicitário preocupou-se em despender um momento para se orientar. Percebeu que estava no chão, e tentou se lembrar por quê. A dor na lateral da cabeça ajudou-o; levara um murro e desmaiara, se sua mente não o traía. Não se lembrava do motivo da agressão, mas agora massageava a têmpora, que então doía mais; uma dor aguda e, pelo que pudera presumir, sangue. Olhou para os dedos e constatou: é, sangue. Olhou em volta e, para sua infelicidade, ainda estava n'um galpão, com o homem careca e forte.
Passou a vista mais uma vez e, dessa vez, identificou uma personagem que até então não tinha conhecido. Ou pelo menos não ali. Era uma mulher alta, de cabelos negros presos n'um rabo-de-cavalo. Usava uma calça preta, uma camiseta cinza, um coldre com arma na cintura e luvas sem dedos. Era de dar medo, não tanto pelo aspecto agressivo e mais pelo aspecto de ex-namorada.
- Er, oi Vicky - disse o publicitário sem jeito. A mulher, que até então estava sentada sobre o capô do carro, pôs-se de pé num salto e começou a vociferar, como só uma ex-namorada faria:
- Você! Estava bom demais para ser verdade...
O publicitário olhou para ela, entendendo e ao mesmo tempo, não. Falou com cautela:
- Você ainda está com raiva porque eu terminei com você? É isso? Por isso você armou esse sequestro? Na verdade, muito atencioso da sua parte...
A mulher contentou-se em rir alto, de forma psicopata, o que fez com que o galpão vibrasse com aquele ruído macabro. Olhou, então, furiosa, e sacou a arma; apontou-a para ele e, com voz suave, prosseguiu:
- Você é um grandissíssimo filho-da-mãe, é verdade, mas isso não é um sequestro e você NÃO terminou comigo.
- Então foi por causa do seu CD do Pink Floyd?
Esta certamente foi a gota que fez o penico transbordar. A próxima coisa que o publicitário viu foi o bico do coturno dela. Como percebeu que a coisa ia ficar preta, resolveu desmaiar de novo.
Quando acordou novamente, porém, arrependeu-se de ter desmaiado. Sentia dores em locais que nem sabia que existiam e, agora, estava amarrado. Ela provavelmente aproveitou que ele estava apagado e continuou batendo. Mulheres.
- Mas o que... você é louca!? - disse, sentindo gosto de sangue na boca.
Ela riu. Era de dar medo:
- Louca? Não, não. Depois do que você fez, merecia mais.
- CHEGA! - gritou o homem alto, careca e forte, que estava quieto até o momento. Chega de palhaçada, de papinho de casal! O problema que temos é muito maior que qualquer rixa de casal.
- Ex-casal - falou o publicitário, solenemente.
- Que seja! Temos que...
- Cara, posso fazer uma pergunta? - interrompeu o publicitário. Imprudentemente, afinal aquele não era o tipo de homem que se interrompe. Pelo menos não impunemente.
- Faça.
A tensão rolou por um tempo, até que o publicitário finalmente soltou:
- Porque você está coberto de manteiga? E como você enxerga com dois tapa-olhos?
O homem alto, careca e forte suspirou. Disse, calmamente:
- Faz parte da história e do problema. Se tiver paciência, contarei tudo.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Um cara sem sorte - Capítulo 7

O publicitário olhou incrédulo para aquele grandalhão no seu carro, sujando tudo de manteiga. Demorou para processar o que ele havia dito e, quando pôde falar, a única coisa que conseguiu dizer foi:
- Você de novo?
O grandalhão bateu com o punho no painel, espalhando manteiga pra todo lado.
- Não temos tempo - disse ele - o perigo é real.
O publicitário decidiu que era melhor não questionar, e que poderia deixar a lagosta para depois. O sinal abriu e eles saíram dali; pra onde, ele não sabia. Seguiu as instruções do homem alto e careca. Foram se embrenhando por ruelas, caminhos estreitos, vias escuras e provavelmente fedorentas.
- Chegamos - sussurrou o homem, talvez para si mesmo. Estavam de frente a um galpão, aparentemente abandonado. "sinto que isso tudo está virando um clichê", pensou o publicitário. O homem saiu do carro, bateu três vezes no grande portão e esperou. O publicitário esperava dentro do carro, desconcertado. "logo agora que eu achava que teria, finalmente, uma vida tranquila..." pensou de novo, tristemente.
O portão se abriu com um ruído ensurdecedor e, por algum motivo, o publicitário achou que aquele barulho todo era obscenamente errado. Não resistiu a se encolher ao som do rangido insistente, até que o barulho finalmente cessou. O portão jazia aberto, com espaço exato para que se carro passasse. Não via o que tinha além, lá dentro. O homem careca e forte acenou, convidando-o a entrar, o que pareceu extremamente hilário, visto que ele não parecia ser bem o tipo de pessoa que convida. Estava mais para o tipo de pessoa que dá uma joelhada na sua bacia, encosta um canivete embaixo do seu maxilar e se contenta em esperar resultados. De qualquer forma, entrou no galpão.
O portão desceu atrás do seu carro, cortando a luz que vinha de fora e tornando a missão 'ENXERGAR' praticamente impossível. O ruído do portão o fez encolher novamente. Saiu do carro, piscando, tentando enxergar qualquer coisa que fosse. Alguns segundos se passaram, ouvia alguns passos, barulho de metal, mais passos e, finalmente, um holofote fora ligado. Já acostumado ao escuro, berrou de dor com a iluminação. Sentia como se tivessem colocado sal em seus olhos, e depois limão, um pouco de tequila e depois lambido. O que era, obviamente, uma sensação estranha, e, pudera, dolorosa. Aos poucos seus olhos foram se acostumando à claridade. Aos poucos o local à sua volta tomava forma e nitidez. Era amplo e apesar do que sua faixada sugeria, era bem limpo - ou pelo menos mais do que se haveria de pensar. O publicitário olhou e, num relance, calculou que o espaço fosse de cerca de vinte metros de largura por trinta de profundidade, com mais ou menos dez metros de altura, dando numa cobertura de ferro, com vigas cruzando por toda sua extensão. Ao fundo, uma escada encaixada levava a uma parte superior, a cerca de quatro metros de altura. Se ele fosse um daqueles viciados em carro, teria imaginado que aquele seria o local perfeito para se fazer uma oficina de tuning de carros ao estilo americano, bem exagerado. Como não era, apenas imaginou que seria um local bacana para se não ser trazido por um homem estranho, com tapa-olhos e besuntado de manteiga.
Agora com tudo a sua volta em plena nitidez, deu atenção aos pequenos detalhes do local. Várias caixas estavam empilhadas no patamar superior; eram de metal, e ele poderia jurar que haviam armas ali dentro - não se sabe se pelo aspecto bruto das caixas ou pela inscrição "ARMAMENTO" pintada nas laterais, sobre a pintura militar camuflada. Próximo a ele, o homem alto, careca e forte estava encostado na parede, com os braços cruzados.
Foi quando, pela sua visão periférica, captou uma movimentação do seu lado esquerdo. Virou-se a tempo de se deparar com um punho em alta velocidade que se chocava bruscamente com o seu rosto, fazendo um barulho esquisito e literariamente indescritível. Como era de praxe, resolveu desmaiar para evitar qualquer confronto mais complexo que pudesse vir. Caiu no chão, fazendo um baque surdo, e metálico na parte em que havia acertado uma lata de tinta com a cabeça. De fato, o destino havia se lembrado dele.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Um cara sem sorte - Capítulo 6

Já há dois anos acontecera o acidente que marcara sua vida de uma certa forma, e não deixava de se lembrar claramente. Provavelmente porque o nosso publicitário, tão sem sorte, desde então havia se visto numa maré de neutralidade que, em si, se compunha por uma sequência de ocorrências sem importância, sem desgraças, sem má-sorte e sem grandalhões vestidos de vikings, com machadinhas de plástico, boias de pato e óculos de sol batendo à sua porta. E sim, essa última já aconteceu.
Parecia a ele que o destino agora o ignorava. Era deveras agradável, no entanto. Seus maiores dissabores até então haviam sido uma unha encravada, uma multa por atraso na locadora de DVD e a morte de uma tia distante do interior, isso em ordem decrescente de desgraças. Mas bem, dois anos atrás, nessa mesma época do ano, acontecera o acidente/incidente que o marcara sem motivo aparente. Conhecera sua vizinha nova, saíra com ela para tomar café-da-manhã e tivera uma manhã agitada. Sucedera, então, que quando voltava pra casa Na hora do almoço, se deparou com uma cena relativamente comum: um acidente de carro que fazia de vítima uma pedestre. O que o chocara, digo, não foi o acidente em si; foi descobrir que a vitimada era a namorada de sua vizinha. E sucedera à isso a mudança de sua vizinha para outra cidade. Era uma pena, gostara dela. Lamentava o romance, a tragédia e tudo mais.
Deixou de pensar em tudo isso e resolveu sair. Agora que comprara um carro novo, estava mais feliz. Decidiu que era uma boa noite para ir comer uma lagosta, então decidiu ir comer uma lagosta mesmo. Pegou as chaves de seu carro novo, que na verdade só era novo pra ele (apesar de ser mais conservado que o anterior), e foi-se, despreocupado, até o elevador. O elevador descendo lentamente o deixava tranquilo. A sensação de ter que esperar, de não ter que e poder se apressar era boa.
Saiu pela recepção tranquilamente, fez um meneio com a cabeça para cumprimentar o porteiro e saiu para pegar seu carro; não era um prédio muito "chique", não tinha estacionamento. Chegou ao seu carro e, como adquirira o costume há dois anos, suspirou aliviado ao constatar que ainda estava lá. Não houve um dia só em que não ficasse aliviado em perceber que ainda tinha carro. Entrou, deu partida e saiu tranquilamente pela rua, quase vazia. Dez minutos até à orla e, quando estava chegando, eis que o destino se lembra dele, como uma cozinheira que pensa "mas poxa, quase esqueci de matar a galinha!". Parou no sinal e, subitamente, um homem alto, careca e forte, com dois tapa-olhos (um em cada), abriu a porta de passageiro e se sentou com violência, fechando a porta com mais violência ainda. O publicitário olhou assustado para a cena; como ele havia conseguido abrir a porta? E pior, porquê ele estava coberto de manteiga e sujando o banco do seu carro todo? Será que ele não sabia que era falta de educação sujar o banco do carro alheio de manteiga? Mas a improbabilidade do reencontro era maior que tudo, o que, contraditoriamente, fez tudo parecer normal. O homem alto careca e forte olhou (?) para ele e falou, entredentes, ríspida e violentamente:
- Estamos em perigo.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

(Sem título ainda) por Laís Lobo

O grito estridente e irritante do despertador me fez acordar. Acordei assustada, toda torta, com o cabelo todo bagunçado e oleoso. Estava sem lavá-lo há mais de três dias. Viver nessas condições estava me deixando quebrada.
Já fazia 15 dias desde que eu e John estávamos morando no antigo escritório de advocacia do tio dele. O ambiente era razoavelmente grande, e havia um chuveiro no banheiro, mas como estava fechado há muito tempo, o amontoado de pó que subia a cada vez que nos movimentávamos fazia aquele lugar parecer um depósito abandonado. Sem contar que, como estava fora de uso, nos restava apenas um pequeno sofá que mal cabia a mim esticada, muito menos nós dois nele.
“Que horas são?” Pensei comigo. Ainda meio atordoada, peguei o telefone: 10:45. Meio que sem saber o porquê, senti um leve desconforto em meu peito como se tivesse algo importante a fazer. AI MEU DEUS! Como pude esquecer? Será que John sabia que horas eram? Pulei do sofá e esmurrei a porta do banheiro, para ter certeza de que ele iria escutar debaixo do som da água e do chuveiro barulhento.
-John, 10:45 já! Miceli’s às 11:00! – Gritei.
Escutei-o chiar um palavrão enquanto o barulho do chuveiro cessava e eu corria para a mala estirada ao chão. Era inverno e estava um frio da porra lá fora. Pena que a minha fuga apressada de casa não me deu tempo de pegar nada além do básico e um tequito a mais. Peguei uma calça jeans cinza escura, minha camiseta do Ramones que sempre caia de lado (deixando um dos meus ombros a mostra), coloquei uma bota preta e minha jaqueta de couro também preta, a mais quente que eu tinha.
Enquanto isso, John colocava sua calça jeans básica, um suéter preto e seu All Star de couro sem meias – aparentemente elas estavam em falta – e saímos disparados pela rua. Pelo menos o Miceli’s Café era a apenas duas quadras do escritório.
Chegamos com três minutos de vantagem, sentamos n’uma mesa de quatro lugares, de modo que John estava do meu lado e havia dois lugares vagos, um na frente de cada um de nós.
- Então, querida, acha que vai dar certo? - Perguntou-me
- Estou contando com isso. Temos cinqüenta reais sobrando, estamos sem xampu ou condicionador, o sabonete é o último e seu tio deixou claro que as contas de água e energia são nossas. – Ao dizer essas palavras, percebi o quão ruim era a nossa situação, e me bateu um leve desespero.
- Não se preocupe, a gente dá um jeito – Disse ele, fazendo o que ninguém fazia de melhor: acalmar-me. Era incrível sua capacidade de, com poucas palavras, me deixar tão confiante.






Autoria: Laís Lobo
Revisão e correção: Matt Looford

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Alice in wonderland



"Alice in wonderland", Nanquim sobre papel reciclado.



Como há muito já havia dito, vou colocar aqui uns desenhos. Estou meio parado, sem desenhar por enquanto, mas vou colocando alguns desenhos antigos. Esse eu fiz no primeiro semestre desse ano, e foi bem divertido de fazer. Apesar da quantidade de detalhes, o fiz em dois dias, num ritmo acelerado por conta da inspiração. Penso em refazê-lo...

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Filosofias Cafajestes de um Subconsciente Emancipado

"Você é um cafajeste", gritava eu, o subconsciente. Não que ele ouvisse. Por "ele" quero dizer "eu", a quem me dirigia, mas não exatamente o "eu subconsciente". Por "eu" quero dizer o cretino, a pessoa física e a pessoa consciente, que não completamente signifique qualquer coisa, afinal ele nunca está no comando de fato. Enfim. "Você é um cafajeste", gritava eu, o subconsciente, para eu mesmo consciente. O que, na verdade, não fazia lá grande diferença, afinal o consciente nunca ouve a mim, de fato. No máximo capta um susurro qualquer, apenas. O que me deixa deveras emputecido, porque a ele cabem as glórias das idéias boas e a mim restam apenas os problemas e complexos. Puta injustiça.

Mas bem: "você é um cafajeste", gritava eu, o subconsciente, para o eu mesmo consciente. Ele não ouvia, mas captava o eco, e assim seguia sendo cafajeste, cada vez mais cretino e cafajesete. D'aí que sou emancipado, me tornei independente por insatisfação. Já que não é reconhecida a minha autoria nas idéias interessantes, tá, hei-de fazer algo para me divertir pelo menos. Eis que nasceu o cafajeste. Confesso que também por pena; tão coitado ele, sofrendo na mão de mulheres por tanto tempo; e agora tornara-se, digamos, esteticamente agradável e até interessante. Pois que surgia em sua cabeça, através de mim, subconscientemente, a divisão classificativa das mulheres em itens de bombonière. Chiclete, caramelo, balinha de abacaxi e pirulito, basicamente. Cafajeste o homem que divide as mulheres por bombom, não?

A mulher-chiclete, segundo refletiu (ou o fiz refletir), era aquela que você "mastiga" e aproveita, até que "perde o doce" e o "açúcar" e você cospe fora; só não pode pisar, porque senão gruda.
A mulher-caramelo, que é difícil de "desfazer da embalagem", difícil de conseguir; é dura, mas depois de algumas lambidas, fica uma delícia; difícil reclamar dela.
A mulher-balinha-de-abacaxi, que logo que você come você vê que não é o que você pensava, não tem nada de "abacaxi". Além de tudó, é enjoativa.
E, enfim, a mulher-pirulito, que você "lambe" por um bom tempo, até chegar ao meio, de chiclete. É boa, por um tempo vale à pena, é doce, mas vira chiclete. Aí, segue a regra da primeira.

Desde tal idéia não houve uma mulher que escapasse a sua classificação classificação. Até que, um dia, connheceu AQUELA mulher. Mas isso é história para outro solilóquio...



(co-autoria de Laís Lobo)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Confissões

Era madrugada de terça-feira, não muito tarde. Ele estava sentado, pensativo, em frente ao computador. O tédio de praxe já nem fazia diferença. Perseguia a inspiração com todas as forças, mas essa lhe fugia como que por magnetismo, repelida. Pelo menos não estava calor demais para lhe forçar a ir até o quintal, nem frio demais para lhe mandar direto para debaixo das cobertas.
Seu pensamento vagava em torno de basicamente uma coisa apenas: Victória (outra coisa que já era de praxe mas estava longe de não fazer diferença). A separação experimentada há tão pouco ainda amargava sua boca de saudades, inda mais com a mensagem súbita que recebera dela, nas altas horas do sábado. Dizia apenas "eu te amo", mas nunca três palavras o fizeram mais feliz. Talvez tanto quanto, quando ouvia "vai ser open-bar", mas isso não vem ao caso. A questão é que quando recebeu a mensagem, levou um soco de saudade no meio do estômago, o que de fato doía. Na ocasião, de fato pensou em chorar, afinal as lágrimas levam embora consigo boa parte da dor, mas resolveu se segurar. Chorar dá sono e ele ainda precisava terminar de ler um livro. Agora, a saudade batia apenas como um eco da saudade que havia sentido no sábado, mas ainda assim bastava para direcionar boa parte de seus pensamentos a ela. Ainda que estivesse com a cabeça cheia, a maior parte era preenchida pelas saudades e pelo tédio. Sem falar na angústia existencial, tão comum a todo o mundo, na verdade. O que de fato o preocupava era como resolveria sua relação com sua garota. Era uma relação bem complicada, no mínimo tensa e no máximo prometia um mês de trégua, sem mágoas. Não que ele se preocupasse em se magoar; ele sempre engolia a mágoa e a aceitava (Victória) de volta. Um pouco indigno, alguns dirão, e podem estar certos, mas ele fazia isso porque a amava mesmo, e sabia que ela precisava dele. Ela precisava de alguém que pudesse aceitá-la quando ninguém mais pudesse. Em relação à mágoa, a única coisa que o preocupava era que ela se magoasse. Ele sabia que tinha forças para arcar com a mágoa. Ela, ele já não tinha certeza. Mas talvez fizesse mais por egoísmo mesmo. Precisava dela. Precisava sentir ou achar que alguém precisava dele; queria cuidar de alguém, fazer-se necessário. Todos somos assim. Ele, você, eu, nós. O mundo. Carência, basicamente. A carência move o mundo...