quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Um cara sem sorte - Capítulo 6

Já há dois anos acontecera o acidente que marcara sua vida de uma certa forma, e não deixava de se lembrar claramente. Provavelmente porque o nosso publicitário, tão sem sorte, desde então havia se visto numa maré de neutralidade que, em si, se compunha por uma sequência de ocorrências sem importância, sem desgraças, sem má-sorte e sem grandalhões vestidos de vikings, com machadinhas de plástico, boias de pato e óculos de sol batendo à sua porta. E sim, essa última já aconteceu.
Parecia a ele que o destino agora o ignorava. Era deveras agradável, no entanto. Seus maiores dissabores até então haviam sido uma unha encravada, uma multa por atraso na locadora de DVD e a morte de uma tia distante do interior, isso em ordem decrescente de desgraças. Mas bem, dois anos atrás, nessa mesma época do ano, acontecera o acidente/incidente que o marcara sem motivo aparente. Conhecera sua vizinha nova, saíra com ela para tomar café-da-manhã e tivera uma manhã agitada. Sucedera, então, que quando voltava pra casa Na hora do almoço, se deparou com uma cena relativamente comum: um acidente de carro que fazia de vítima uma pedestre. O que o chocara, digo, não foi o acidente em si; foi descobrir que a vitimada era a namorada de sua vizinha. E sucedera à isso a mudança de sua vizinha para outra cidade. Era uma pena, gostara dela. Lamentava o romance, a tragédia e tudo mais.
Deixou de pensar em tudo isso e resolveu sair. Agora que comprara um carro novo, estava mais feliz. Decidiu que era uma boa noite para ir comer uma lagosta, então decidiu ir comer uma lagosta mesmo. Pegou as chaves de seu carro novo, que na verdade só era novo pra ele (apesar de ser mais conservado que o anterior), e foi-se, despreocupado, até o elevador. O elevador descendo lentamente o deixava tranquilo. A sensação de ter que esperar, de não ter que e poder se apressar era boa.
Saiu pela recepção tranquilamente, fez um meneio com a cabeça para cumprimentar o porteiro e saiu para pegar seu carro; não era um prédio muito "chique", não tinha estacionamento. Chegou ao seu carro e, como adquirira o costume há dois anos, suspirou aliviado ao constatar que ainda estava lá. Não houve um dia só em que não ficasse aliviado em perceber que ainda tinha carro. Entrou, deu partida e saiu tranquilamente pela rua, quase vazia. Dez minutos até à orla e, quando estava chegando, eis que o destino se lembra dele, como uma cozinheira que pensa "mas poxa, quase esqueci de matar a galinha!". Parou no sinal e, subitamente, um homem alto, careca e forte, com dois tapa-olhos (um em cada), abriu a porta de passageiro e se sentou com violência, fechando a porta com mais violência ainda. O publicitário olhou assustado para a cena; como ele havia conseguido abrir a porta? E pior, porquê ele estava coberto de manteiga e sujando o banco do seu carro todo? Será que ele não sabia que era falta de educação sujar o banco do carro alheio de manteiga? Mas a improbabilidade do reencontro era maior que tudo, o que, contraditoriamente, fez tudo parecer normal. O homem alto careca e forte olhou (?) para ele e falou, entredentes, ríspida e violentamente:
- Estamos em perigo.

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