terça-feira, 20 de dezembro de 2011

(Sem título ainda) por Laís Lobo

O grito estridente e irritante do despertador me fez acordar. Acordei assustada, toda torta, com o cabelo todo bagunçado e oleoso. Estava sem lavá-lo há mais de três dias. Viver nessas condições estava me deixando quebrada.
Já fazia 15 dias desde que eu e John estávamos morando no antigo escritório de advocacia do tio dele. O ambiente era razoavelmente grande, e havia um chuveiro no banheiro, mas como estava fechado há muito tempo, o amontoado de pó que subia a cada vez que nos movimentávamos fazia aquele lugar parecer um depósito abandonado. Sem contar que, como estava fora de uso, nos restava apenas um pequeno sofá que mal cabia a mim esticada, muito menos nós dois nele.
“Que horas são?” Pensei comigo. Ainda meio atordoada, peguei o telefone: 10:45. Meio que sem saber o porquê, senti um leve desconforto em meu peito como se tivesse algo importante a fazer. AI MEU DEUS! Como pude esquecer? Será que John sabia que horas eram? Pulei do sofá e esmurrei a porta do banheiro, para ter certeza de que ele iria escutar debaixo do som da água e do chuveiro barulhento.
-John, 10:45 já! Miceli’s às 11:00! – Gritei.
Escutei-o chiar um palavrão enquanto o barulho do chuveiro cessava e eu corria para a mala estirada ao chão. Era inverno e estava um frio da porra lá fora. Pena que a minha fuga apressada de casa não me deu tempo de pegar nada além do básico e um tequito a mais. Peguei uma calça jeans cinza escura, minha camiseta do Ramones que sempre caia de lado (deixando um dos meus ombros a mostra), coloquei uma bota preta e minha jaqueta de couro também preta, a mais quente que eu tinha.
Enquanto isso, John colocava sua calça jeans básica, um suéter preto e seu All Star de couro sem meias – aparentemente elas estavam em falta – e saímos disparados pela rua. Pelo menos o Miceli’s Café era a apenas duas quadras do escritório.
Chegamos com três minutos de vantagem, sentamos n’uma mesa de quatro lugares, de modo que John estava do meu lado e havia dois lugares vagos, um na frente de cada um de nós.
- Então, querida, acha que vai dar certo? - Perguntou-me
- Estou contando com isso. Temos cinqüenta reais sobrando, estamos sem xampu ou condicionador, o sabonete é o último e seu tio deixou claro que as contas de água e energia são nossas. – Ao dizer essas palavras, percebi o quão ruim era a nossa situação, e me bateu um leve desespero.
- Não se preocupe, a gente dá um jeito – Disse ele, fazendo o que ninguém fazia de melhor: acalmar-me. Era incrível sua capacidade de, com poucas palavras, me deixar tão confiante.






Autoria: Laís Lobo
Revisão e correção: Matt Looford

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