quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Um cara sem sorte - Capítulo 7

O publicitário olhou incrédulo para aquele grandalhão no seu carro, sujando tudo de manteiga. Demorou para processar o que ele havia dito e, quando pôde falar, a única coisa que conseguiu dizer foi:
- Você de novo?
O grandalhão bateu com o punho no painel, espalhando manteiga pra todo lado.
- Não temos tempo - disse ele - o perigo é real.
O publicitário decidiu que era melhor não questionar, e que poderia deixar a lagosta para depois. O sinal abriu e eles saíram dali; pra onde, ele não sabia. Seguiu as instruções do homem alto e careca. Foram se embrenhando por ruelas, caminhos estreitos, vias escuras e provavelmente fedorentas.
- Chegamos - sussurrou o homem, talvez para si mesmo. Estavam de frente a um galpão, aparentemente abandonado. "sinto que isso tudo está virando um clichê", pensou o publicitário. O homem saiu do carro, bateu três vezes no grande portão e esperou. O publicitário esperava dentro do carro, desconcertado. "logo agora que eu achava que teria, finalmente, uma vida tranquila..." pensou de novo, tristemente.
O portão se abriu com um ruído ensurdecedor e, por algum motivo, o publicitário achou que aquele barulho todo era obscenamente errado. Não resistiu a se encolher ao som do rangido insistente, até que o barulho finalmente cessou. O portão jazia aberto, com espaço exato para que se carro passasse. Não via o que tinha além, lá dentro. O homem careca e forte acenou, convidando-o a entrar, o que pareceu extremamente hilário, visto que ele não parecia ser bem o tipo de pessoa que convida. Estava mais para o tipo de pessoa que dá uma joelhada na sua bacia, encosta um canivete embaixo do seu maxilar e se contenta em esperar resultados. De qualquer forma, entrou no galpão.
O portão desceu atrás do seu carro, cortando a luz que vinha de fora e tornando a missão 'ENXERGAR' praticamente impossível. O ruído do portão o fez encolher novamente. Saiu do carro, piscando, tentando enxergar qualquer coisa que fosse. Alguns segundos se passaram, ouvia alguns passos, barulho de metal, mais passos e, finalmente, um holofote fora ligado. Já acostumado ao escuro, berrou de dor com a iluminação. Sentia como se tivessem colocado sal em seus olhos, e depois limão, um pouco de tequila e depois lambido. O que era, obviamente, uma sensação estranha, e, pudera, dolorosa. Aos poucos seus olhos foram se acostumando à claridade. Aos poucos o local à sua volta tomava forma e nitidez. Era amplo e apesar do que sua faixada sugeria, era bem limpo - ou pelo menos mais do que se haveria de pensar. O publicitário olhou e, num relance, calculou que o espaço fosse de cerca de vinte metros de largura por trinta de profundidade, com mais ou menos dez metros de altura, dando numa cobertura de ferro, com vigas cruzando por toda sua extensão. Ao fundo, uma escada encaixada levava a uma parte superior, a cerca de quatro metros de altura. Se ele fosse um daqueles viciados em carro, teria imaginado que aquele seria o local perfeito para se fazer uma oficina de tuning de carros ao estilo americano, bem exagerado. Como não era, apenas imaginou que seria um local bacana para se não ser trazido por um homem estranho, com tapa-olhos e besuntado de manteiga.
Agora com tudo a sua volta em plena nitidez, deu atenção aos pequenos detalhes do local. Várias caixas estavam empilhadas no patamar superior; eram de metal, e ele poderia jurar que haviam armas ali dentro - não se sabe se pelo aspecto bruto das caixas ou pela inscrição "ARMAMENTO" pintada nas laterais, sobre a pintura militar camuflada. Próximo a ele, o homem alto, careca e forte estava encostado na parede, com os braços cruzados.
Foi quando, pela sua visão periférica, captou uma movimentação do seu lado esquerdo. Virou-se a tempo de se deparar com um punho em alta velocidade que se chocava bruscamente com o seu rosto, fazendo um barulho esquisito e literariamente indescritível. Como era de praxe, resolveu desmaiar para evitar qualquer confronto mais complexo que pudesse vir. Caiu no chão, fazendo um baque surdo, e metálico na parte em que havia acertado uma lata de tinta com a cabeça. De fato, o destino havia se lembrado dele.

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