Chegou ao chaveiro. O homem era miúdo, de uma forma engraçada. Usava um chapéu engraçado, uma camisa de botões engraçados e uma estampa engraçada, sapatos de cadarço engraçados e um shorte preto. O homem sorriu de um jeito engraçado e, com cordialidade, cumprimentou-o:
- Ora, Gustavo, está ficando cada vez menos raro vê-lo por aqui!
O publicitário riu:
- Ei Bob, você sabe que esse não é o meu nome.
- Sim, de fato sei, mas as moscas estão por aí cara. Nunca se sabe quem está de olho na bandeira.
O publicitário já estava acostumado a isso. O Bob era sempre assim, meio neurótico, louco. Mas era engraçado, o que o redimia de qualquer coisa. Prosseguiu:
- Certo, certo Bob... Vou precisar do de sempre. Ainda tem a fôrma da minha chave aí?
- Lógico, pezinho-de-alface. Você aparece aqui pelo menos 2 vezes por mês por uma chave nova. Já tenho até algumas já feitas, de reserva. Tome, leve essa; é por conta da casa dessa vez!
- Ah, obrigado Bob! Melhor ainda porque também não tenho dinheiro. Mas logo que tiver, venho te pagar uma cerveja.
- Ok, amigo, sem problema.
- Bom, muito obrigado Bob. Até mais!
- Até mais, Jorge! Vai com Kevin!
O publicitário andava tranquilamente. Estava feliz em poder voltar pra casa. Ainda estava feliz também por ter conhecido a Anna. Como já estava perto da hora do almoço, resolveu pedir comida pra levar pra casa, mas lembrou que estava sem dinheiro então foi direto pra casa mesmo. Quando estava chegando, porém, viu um amontoado de pessoas na pista. Correu para ver o que era. Como não conseguisse chegar perto, perguntou a alguém que parecia já ter se informado e estava tangenciando o círculo, contando a outras pessoas:
- Foi uma garota. Atropelada quando atravessava a pista. Uma doida; o sinal estava fechado, disseram, e ela passou correndo. Trágico.
Ouvia-se ao longe o som de sirenes se aproximando. O homem prosseguiu:
- Bem bonita ela. Uma pena... E veja o drama: quando chegou alguém pra socorrê-la, parece que ela disse algo antes de desmaiar, morrer, sei lá.
O publicitário ficou curioso. Perguntou:
- Mas o que foi que ela disse? Você sabe?
- Ah, parece que disse o nome de alguém. "Ana", se não me engano. Deve ser a mãe dela, ou irmã, sei lá.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Palavras trocadas
Casual encontro:
- E então, há quanto tempo sem nos falarmos, não é?
- Pois é. Desde aquele malfadado jantar... Três meses, não?
- Hum, nem me lembre. Encontro de casais, sempre um desastre. Falando nisso, você, a Lúcia... Como está o romance?
- Ah, terminei.
- Ué, Terminou com a Lúcia? Mas porque?
- Não, terminei o romance que eu estava escrevendo.
- Ah. Não sabia que você estava escrevendo um romance.
- Mesmo? Eu te falei. Na ocasião desse mesmo jantar, se bem me lembro. Entre o leitão e a degustação de vinho.
- Hum. Falando em vinho, lembra-se do Gilberto? O irmão do Carlos do escritório dos Freitas, casado com a Silvinha.
- Quem casado com a Silvinha: o Carlos ou o Gilberto?
- Nenhum dos dois. O Freitas. Rogério Freitas. Lembra-se dele?
- Lembro sim. Não foi ele que foi expulso da casa do Gomes por estar fazendo obscenidades atrás das palmeiras que ornamentavam a piscina? Dizem que foi com um cachorro. De cerâmica.
- Não, creio que não. Esse Freitas é dono de várias empresas. Riquíssimo.
- E só por isso não pode transar com um cachorro de barro?
- Mas não era de cerâmica?
- Tanto faz.
- Nada disso. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
- Puts! Acabei de lembrar... Sabe o Coisa?
- Não.
- Como não Sabe?
- Não sabendo, ué. Da mesma forma que não sabia do seu romance.
- Com a Lúcia?
- Não, o romance que você estava escrevendo.
- Ah. Você já leu?
- Claro que não. Nem sabia que você tinha escrito um romance.
- Ah, é mesmo. Se quiser, vai ter um jantar com degustação de vinho que vai marcar o lançamento do livro. Só entre os amigos, sabe? Casais. Leve a Paula. Vai ser na sexta da semana que vem.
- Tudo bem, vou sim. Na sua casa de novo, não é?
- Isso.
- A propósito, quem trepou com a estátua do cachorro fui eu.
- Ah.
Silêncio constrangedor. Despedida:
- Então tá, tchau.
- Até sexta na sua casa.
- E então, há quanto tempo sem nos falarmos, não é?
- Pois é. Desde aquele malfadado jantar... Três meses, não?
- Hum, nem me lembre. Encontro de casais, sempre um desastre. Falando nisso, você, a Lúcia... Como está o romance?
- Ah, terminei.
- Ué, Terminou com a Lúcia? Mas porque?
- Não, terminei o romance que eu estava escrevendo.
- Ah. Não sabia que você estava escrevendo um romance.
- Mesmo? Eu te falei. Na ocasião desse mesmo jantar, se bem me lembro. Entre o leitão e a degustação de vinho.
- Hum. Falando em vinho, lembra-se do Gilberto? O irmão do Carlos do escritório dos Freitas, casado com a Silvinha.
- Quem casado com a Silvinha: o Carlos ou o Gilberto?
- Nenhum dos dois. O Freitas. Rogério Freitas. Lembra-se dele?
- Lembro sim. Não foi ele que foi expulso da casa do Gomes por estar fazendo obscenidades atrás das palmeiras que ornamentavam a piscina? Dizem que foi com um cachorro. De cerâmica.
- Não, creio que não. Esse Freitas é dono de várias empresas. Riquíssimo.
- E só por isso não pode transar com um cachorro de barro?
- Mas não era de cerâmica?
- Tanto faz.
- Nada disso. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.
- Puts! Acabei de lembrar... Sabe o Coisa?
- Não.
- Como não Sabe?
- Não sabendo, ué. Da mesma forma que não sabia do seu romance.
- Com a Lúcia?
- Não, o romance que você estava escrevendo.
- Ah. Você já leu?
- Claro que não. Nem sabia que você tinha escrito um romance.
- Ah, é mesmo. Se quiser, vai ter um jantar com degustação de vinho que vai marcar o lançamento do livro. Só entre os amigos, sabe? Casais. Leve a Paula. Vai ser na sexta da semana que vem.
- Tudo bem, vou sim. Na sua casa de novo, não é?
- Isso.
- A propósito, quem trepou com a estátua do cachorro fui eu.
- Ah.
Silêncio constrangedor. Despedida:
- Então tá, tchau.
- Até sexta na sua casa.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Um cara sem sorte - Capítulo 4
A primeira coisa que passou pela cabeça do publicitário foi: "O que diabos está acontecendo?". Ver o seu carro atravessando a fachada de uma padaria era, decerto, algo que ele não imaginava, tudo bem. Mas um careca forte com dois tapa-olhos segurando uma arma? Ok, essa foi demais. Decidiu que tinha que desmaiar, e foi exatamente isso que fez. Não sem bater na cabeça na mesa, como era de não se esperar.
O homem careca e forte olhou (?) em volta. Parecia procurar por algo. Caminhou por sobre os cacos de vidro, que estralavam à pressão do seu coturno. Foi em direção ao balcão; a atendente, assustada, se escondia, pateticamente, atrás da cadeira. O homem careca e forte deu um murro no balcão. Olhou (?) para a atendente e gritou:
- CADÊ A MANTEIGA!?
A atendente, tremendo, começou a chorar. O homem careca e forte repetiu:
- Manteiga, cadê a manteiga!?
Outra funcionária, aparentemente mais corajosa, trouxe, de braços cheios, umas dúzias de barras de manteiga. Postou-as sobre a bancada e, audaciosa, falou com o homem careca e forte:
- oitenta centavos cada barra, senhor.
O homem deu uma risada alta e olhou com desdém para ela. Com deboche, perguntou:
- Oitenta centavos? Cada?!
- Sim, senhor.
Respondeu a atendente. Ele fechou a cara e falou:
- Certo, me vê 10... Cê tem troco pra 50?
O publicitário acordou a tempo de assistir ao final da transação. O H.C.F (homem careca e forte) caminhou até o carro com a sacola cheia de barras de manteiga numa das mãos e a arma na outra. Jogou a sacola no banco, pela janela, entrou no carro e deu a partida. Antes de sair, gritou obscena e furiosamente:
- OBRIGADO!
E saiu cantando pneu de dentro da loja, batendo num carro que passava e derrubando uma messa com guarda-sol.
O publicitário levantou e foi em direção à Anna. Ela riu e, enquanto se recompunha, falava:
-Quem diria! Esse domingo tá animado, hein... Acabei de voltar e já está acontecendo mais coisas nesse final-de-semana do que nos últimos três meses.
A padaria, aos poucos, retomava o ar cotidiano, ou pelo menos ele achava, afinal era a primeira vez que ia ali. O padeiro gritava lá de dentro, reclamando com os funcionários, como o publicitário imaginou que fosse de costume. Ele coçou a cabeça e propôs:
- Que tal voltarmos? Já foi emoção demais pra um café-da manhã...
- Calma, tenho que pedir algo antes. E ainda não comemos... Mas eu vou pedir algo pra levar.
Ela rapidamente pegou alguns croissants, café e algumas outras coisas que ele, não prestando atenção, não identificou. Ele, curioso, perguntou:
- Ora, mas é coisa demais para você comer sozinha, não?
- Certamente. Mas minha namorada já deve estar acordando, a essa hora...
Ele assustou-se. Novamente curioso, perguntou:
- Mas... a essa hora? Meu deus, se eu pudesse dormiria o máximo possível... Vocês, lésbicas, são estranhas. Enfim, vamos...
Ela riu:
- Você parece um pouco desconcertado. Bem, então vamos...
Seguiram até a portaria e ele, subitamente, lembrou-se de que não tinha como entrar em seu apartamento:
- Anna, tenho que, hm, resolver um probleminha. Nos veremos. Foi ótimo conhecê-la.
- Ah, ok. Bem, nos veremos mais tarde. Até te apresento à Júlia!
Ela subiu e ele saiu. Foi para o chaveiro, que o conhecia de sempre. Era cliente antigo. Afinal, era um homem sem sorte...
O homem careca e forte olhou (?) em volta. Parecia procurar por algo. Caminhou por sobre os cacos de vidro, que estralavam à pressão do seu coturno. Foi em direção ao balcão; a atendente, assustada, se escondia, pateticamente, atrás da cadeira. O homem careca e forte deu um murro no balcão. Olhou (?) para a atendente e gritou:
- CADÊ A MANTEIGA!?
A atendente, tremendo, começou a chorar. O homem careca e forte repetiu:
- Manteiga, cadê a manteiga!?
Outra funcionária, aparentemente mais corajosa, trouxe, de braços cheios, umas dúzias de barras de manteiga. Postou-as sobre a bancada e, audaciosa, falou com o homem careca e forte:
- oitenta centavos cada barra, senhor.
O homem deu uma risada alta e olhou com desdém para ela. Com deboche, perguntou:
- Oitenta centavos? Cada?!
- Sim, senhor.
Respondeu a atendente. Ele fechou a cara e falou:
- Certo, me vê 10... Cê tem troco pra 50?
O publicitário acordou a tempo de assistir ao final da transação. O H.C.F (homem careca e forte) caminhou até o carro com a sacola cheia de barras de manteiga numa das mãos e a arma na outra. Jogou a sacola no banco, pela janela, entrou no carro e deu a partida. Antes de sair, gritou obscena e furiosamente:
- OBRIGADO!
E saiu cantando pneu de dentro da loja, batendo num carro que passava e derrubando uma messa com guarda-sol.
O publicitário levantou e foi em direção à Anna. Ela riu e, enquanto se recompunha, falava:
-Quem diria! Esse domingo tá animado, hein... Acabei de voltar e já está acontecendo mais coisas nesse final-de-semana do que nos últimos três meses.
A padaria, aos poucos, retomava o ar cotidiano, ou pelo menos ele achava, afinal era a primeira vez que ia ali. O padeiro gritava lá de dentro, reclamando com os funcionários, como o publicitário imaginou que fosse de costume. Ele coçou a cabeça e propôs:
- Que tal voltarmos? Já foi emoção demais pra um café-da manhã...
- Calma, tenho que pedir algo antes. E ainda não comemos... Mas eu vou pedir algo pra levar.
Ela rapidamente pegou alguns croissants, café e algumas outras coisas que ele, não prestando atenção, não identificou. Ele, curioso, perguntou:
- Ora, mas é coisa demais para você comer sozinha, não?
- Certamente. Mas minha namorada já deve estar acordando, a essa hora...
Ele assustou-se. Novamente curioso, perguntou:
- Mas... a essa hora? Meu deus, se eu pudesse dormiria o máximo possível... Vocês, lésbicas, são estranhas. Enfim, vamos...
Ela riu:
- Você parece um pouco desconcertado. Bem, então vamos...
Seguiram até a portaria e ele, subitamente, lembrou-se de que não tinha como entrar em seu apartamento:
- Anna, tenho que, hm, resolver um probleminha. Nos veremos. Foi ótimo conhecê-la.
- Ah, ok. Bem, nos veremos mais tarde. Até te apresento à Júlia!
Ela subiu e ele saiu. Foi para o chaveiro, que o conhecia de sempre. Era cliente antigo. Afinal, era um homem sem sorte...
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Um cara sem sorte - Capítulo 3
Chegaram à padaria, que não era tão longe, e ele percebeu que nunca havia ido ali. Perguntou-se como isso era possível, afinal morava lá desde sempre e aquela padaria era na avenida. Passava por ela todo dia para ir ao trabalho. Olhou em volta. Era um local realmente agradável, até aconchegante. Um misto de padaria, lanchonete e lojinha de conveniência (cuja única conveniência, como em todas as lojas de conveniência na verdade, era o modo convenientemente mais lucrativo para eles como as coisas estão dispostas nas prateleiras, fazendo com que você inconvenientemente encontre e compre qualquer coisa que não o que você de fato queria). Sentaram-se e ele olhou novamente e mais atentamente para ela. Era muito linda. Cabelos ruivos, repicados, emolduravam um rosto anguloso. Seu rosto parecia ter sido feito à mão. Ela sorriu um pouco sem jeito e perguntou:
- O que foi? Você está já há meia-hora com cara de bobo olhando para mim...
Ele sorriu intrigado. Percebia que, apesar de se desdobrar em sorrisos, seus olhos eram bastante tristes. Por fim, falou:
- Nada demais, só admirando sua beleza...
Ele percebeu o quanto aquilo soara piegas. Ela riu um pouco. Ele, subitamente, se deu conta de algo. Perguntou:
- A propósito, como se chama a senhorita?
- Ah, Anna. Anna Domarco...
Ela riu, aparentemente de uma piada interna que ele não captou. Ela perguntou:
- E você? Também não sei o seu nome...
Ele estava prestes a falar quando, de repente, um carro irrompeu pelo vidro da frente da padaria. Cacos do vidro se espalharam pelo recinto, para todo lado; no susto, ambos caíram das cadeiras. O caos se espalhou, e rapidamente todas as pessoas estavam correndo, pra lá e pra cá, sem de fato ir a lugar algum, como formigas cujas antenas foram arrancadas. Ele rapidamente se pôs de pé e foi ajudar a Anna. Olhou em direção ao veículo estacionado tranquilamente entre o caixa e uma prateleira de doces e percebeu, estupefato, que aquele era o seu carro. Sabia daquilo porque nenhum outro carro na terra tinha um capô com um membro fálico riscado à prego, uma porta verde a a outra azul. Um homem careca e forte, usando dois tapa-olhos, um em cada olho, desceu do carro resmungando com uma arma em punhos.
- O que foi? Você está já há meia-hora com cara de bobo olhando para mim...
Ele sorriu intrigado. Percebia que, apesar de se desdobrar em sorrisos, seus olhos eram bastante tristes. Por fim, falou:
- Nada demais, só admirando sua beleza...
Ele percebeu o quanto aquilo soara piegas. Ela riu um pouco. Ele, subitamente, se deu conta de algo. Perguntou:
- A propósito, como se chama a senhorita?
- Ah, Anna. Anna Domarco...
Ela riu, aparentemente de uma piada interna que ele não captou. Ela perguntou:
- E você? Também não sei o seu nome...
Ele estava prestes a falar quando, de repente, um carro irrompeu pelo vidro da frente da padaria. Cacos do vidro se espalharam pelo recinto, para todo lado; no susto, ambos caíram das cadeiras. O caos se espalhou, e rapidamente todas as pessoas estavam correndo, pra lá e pra cá, sem de fato ir a lugar algum, como formigas cujas antenas foram arrancadas. Ele rapidamente se pôs de pé e foi ajudar a Anna. Olhou em direção ao veículo estacionado tranquilamente entre o caixa e uma prateleira de doces e percebeu, estupefato, que aquele era o seu carro. Sabia daquilo porque nenhum outro carro na terra tinha um capô com um membro fálico riscado à prego, uma porta verde a a outra azul. Um homem careca e forte, usando dois tapa-olhos, um em cada olho, desceu do carro resmungando com uma arma em punhos.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Um cara sem sorte - Capítulo 2
O publicitário, enfim, acordou. Não assim, desse jeito. Acordou com uma caixa que do alto de uma pilha de outras caixas despencou sobre ele. Mais especificamente sobre sua cabeça. Olhou em volta atordoado, procurando reconhecer o local a sua volta. Reconheceu a porta de seu apartamento. O sono ainda tomava conta de sua pessoa, e o motivo de estar do lado de fora, e não de dentro do seu apartamento ainda era um pouco misterioso. Massageou as têmporas enquanto se recostava pesadamente na sua porta. Lembrava-se agora do episódio. Voltara para casa a pé e tivera que dormir fora porque a chave de casa estava no carro, que estava sabe-se lá deus onde.
Olhou pro lado, aonde a caixa havia ido parar depois de esmagar sua cabeça, e olhou para a pilha de caixas. Pensou o que diabos aquilo estava fazendo ali, e lembrou-se, sem motivo aparente, que era domingo de manhã.
Levantou-se de forma "crocante". Seu corpo todo estralava, afinal dormira em posição fetal, no chão e no frio. Fez uma careta enquanto estralava, novamente, as costas. Era a segunda vez que dormia nessa mesma situação. Olhou a porta vizinha a sua e viu certa movimentação. Deu uma espiada; alguém parecia estar se mudando para lá. O elevador, então, chegou. A mulher que estava dentro até tentou sair mas, como sempre, a porta emperrou com um solavanco barulhento. Ela olhou um pouco assustada para fora e falou:
- Com licença moço, poderia me ajudar? Esse troço; já é a segunda vez que emperra comigo. Poderia me dar uma forcinha?
- Ah, hum, certo. Disse o publicitário, um pouco indiferente. Já estava acostumado com aquele elevador.
Demoraram um pouco para abrir o que faltava a força, principalmente porque o elevador insistia em tentar descer, mas enfim livraram-na daquilo. Ela se recompôs, se endireitou e sorriu. Falou:
- Muito obrigada. Devo supor que você seja o meu novo vizinho.
De fato era uma novidade para ele. Fez cara de esclarecimento e respondeu:
- Hum, sim, sim, suponho que sim.
Ela sorriu novamente e estendeu-lhe a mão; continuou:
- Então, prazer em conhecê-lo! Se não estiver muito ocupado, gostaria de me acompanhar no café-da-manhã? Digo, não em minha casa, não tem nada ainda. Mas, pelo que vi, tem uma padaria bem charmosa aqui na esquina. Eu pago! Como agradecimento por ter me livrado do elevador. Gostaria de me acompanhar? Não conheço ninguém nessa cidade ainda... Poderíamos conversar um pouco, sei lá.
Ele ponderou um pouco. Achou muito estranho; era muito simpática, muito... agradável! Mas não tinha muito o que fazer. Não tinha dinheiro e estava trancado para fora de casa, e com fome. Resolveu aceitar:
- Hum, certo. Pode ser interessante.
- Ótimo! Então só vou pegar minha bolsa. Espera um instante?
- Não vou a lugar algum sem você.
Disse ele, sorrindo. Involuntariamente, mas sorrindo. Era impossível não sorrir para ela; era uma moça linda. Ela sorriu de volta e foi para dentro, procurar a bolsa. Ele suspirou. Pressentia algo ruim para aquele domingo. Mais uma vez.
Olhou pro lado, aonde a caixa havia ido parar depois de esmagar sua cabeça, e olhou para a pilha de caixas. Pensou o que diabos aquilo estava fazendo ali, e lembrou-se, sem motivo aparente, que era domingo de manhã.
Levantou-se de forma "crocante". Seu corpo todo estralava, afinal dormira em posição fetal, no chão e no frio. Fez uma careta enquanto estralava, novamente, as costas. Era a segunda vez que dormia nessa mesma situação. Olhou a porta vizinha a sua e viu certa movimentação. Deu uma espiada; alguém parecia estar se mudando para lá. O elevador, então, chegou. A mulher que estava dentro até tentou sair mas, como sempre, a porta emperrou com um solavanco barulhento. Ela olhou um pouco assustada para fora e falou:
- Com licença moço, poderia me ajudar? Esse troço; já é a segunda vez que emperra comigo. Poderia me dar uma forcinha?
- Ah, hum, certo. Disse o publicitário, um pouco indiferente. Já estava acostumado com aquele elevador.
Demoraram um pouco para abrir o que faltava a força, principalmente porque o elevador insistia em tentar descer, mas enfim livraram-na daquilo. Ela se recompôs, se endireitou e sorriu. Falou:
- Muito obrigada. Devo supor que você seja o meu novo vizinho.
De fato era uma novidade para ele. Fez cara de esclarecimento e respondeu:
- Hum, sim, sim, suponho que sim.
Ela sorriu novamente e estendeu-lhe a mão; continuou:
- Então, prazer em conhecê-lo! Se não estiver muito ocupado, gostaria de me acompanhar no café-da-manhã? Digo, não em minha casa, não tem nada ainda. Mas, pelo que vi, tem uma padaria bem charmosa aqui na esquina. Eu pago! Como agradecimento por ter me livrado do elevador. Gostaria de me acompanhar? Não conheço ninguém nessa cidade ainda... Poderíamos conversar um pouco, sei lá.
Ele ponderou um pouco. Achou muito estranho; era muito simpática, muito... agradável! Mas não tinha muito o que fazer. Não tinha dinheiro e estava trancado para fora de casa, e com fome. Resolveu aceitar:
- Hum, certo. Pode ser interessante.
- Ótimo! Então só vou pegar minha bolsa. Espera um instante?
- Não vou a lugar algum sem você.
Disse ele, sorrindo. Involuntariamente, mas sorrindo. Era impossível não sorrir para ela; era uma moça linda. Ela sorriu de volta e foi para dentro, procurar a bolsa. Ele suspirou. Pressentia algo ruim para aquele domingo. Mais uma vez.
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Um cara sem sorte - Capítulo 1
Era um homem alto e careca, forte. Andava quase correndo, ou corria quase andando, tanto faz. De qualquer forma, o fazia com certo nervosismo. A tensão era evidente nos seu olhos inquietos, que buscavam qualquer sinal de perigo. Vinha subindo a rua e não parava de olhar para trás e para os lados. Parou frente a um carro, não muito novo, e novamente observou a situação ao seu redor. Haviam poucas pessoas na rua, afinal já eram quase onze horas da noite, e aquele bairro não era dos mais seguros. Estava mexendo na maçaneta da porta do carro quando, de longe, avistou três homens vestidos de preto, correndo em sua direção. Decidiu que não era hora para sutilezas: tirou a camisa, amarrou no punho e quebrou a janela do carro. Entrou sem se preocupar com os caquinhos de vidro que rasgavam sua pele e sentou no banco do motorista. Muito habilmente fez ligação direta e, o mais rápido que pôde, saiu dali, com os tiros voando em direção ao veículo. Mas essa história não é sobre esse homem careca e forte, a perseguição subsequente a essa fuga ou ao tiroteio que, posteriormente, tiraria a vida de dois dos homens de preto e deixaria cego o homem careca e forte. Essa história é sobre o infeliz dono do carro subtraído para os fins de fuga.
Era um homem não muito alto nem muito baixo. Não era forte nem era fraco, também. Tinha olheiras, cara de resignação e cabelos bagunçados. Parecia ter mais ou menos 30 anos. Ficara até tarde trabalhando no escritório de publicidade, no qual trabalhava a entediantes 8 anos, porque todos tinham algo a fazer aquela noite. O seu chefe tinha um jantar com a mulher, qual delas ele não sabia; o designer tinha uma festa para organizar; a secretária tinha que sair com sua namorada e o estagiário, até esse, tinha que fazer alguma coisa, o que não importa muito, afinal era um estagiário. Até o homem careca e forte tinha que fazer algo, que era basicamente correr por aí com o carro alheio. Carro alheio do nosso publicitário aqui, mas obviamente ele ainda não sabia disso. Trancou a porta do escritório, suspirou profundamente, resignado por ser o capacho de todos. Foi andando os dois quarteirões que o separavam de seu carro, que ganhara num jogo de poker certa vez; único lance de sorte de sua vida. As ruas estavam muito mal-iluminadas e ele pressentia um assalto mas, surpreendentemente, chegou até a esquina de onde havia estacionado sem nenhuma abordagem anormal. Até que chegou ao local aonde, tinha certeza, havia estacionado seu carro e, bem, ele não estava lá. Suspirou triste e pensou:
"faz sentido. Fazem dois meses que não sou assaltado. Ainda bem que não paguei nada naquele carro..."
Fitou mais uma vez a vaga vazia, como que para se convencer da não-presença de seu carro, agora não tão seu, e foi caminhando tristemente até o ponto de ônibus. Claro, não sem ser abordado três vezes por pessoas estranhas, sendo assaltado em duas dessas, e tendo que, ao chegar ao ponto, implorar ao motorista e ao cobrador para o levarem. O que, na verdade não deu certo. Andou metade do caminho até o seu prédio, para só então lembrar que as chaves da porta haviam ficado no carro. O porteiro o deixou entrar e ele, muito humildemente, pediu ao porteiro que o emprestasse seu cobertor. O porteiro, muito comovido pela história, emprestou, e o nosso publicitário, muito tristemente, dormiu no tapete em frente a sua porta. De novo.
Era um homem não muito alto nem muito baixo. Não era forte nem era fraco, também. Tinha olheiras, cara de resignação e cabelos bagunçados. Parecia ter mais ou menos 30 anos. Ficara até tarde trabalhando no escritório de publicidade, no qual trabalhava a entediantes 8 anos, porque todos tinham algo a fazer aquela noite. O seu chefe tinha um jantar com a mulher, qual delas ele não sabia; o designer tinha uma festa para organizar; a secretária tinha que sair com sua namorada e o estagiário, até esse, tinha que fazer alguma coisa, o que não importa muito, afinal era um estagiário. Até o homem careca e forte tinha que fazer algo, que era basicamente correr por aí com o carro alheio. Carro alheio do nosso publicitário aqui, mas obviamente ele ainda não sabia disso. Trancou a porta do escritório, suspirou profundamente, resignado por ser o capacho de todos. Foi andando os dois quarteirões que o separavam de seu carro, que ganhara num jogo de poker certa vez; único lance de sorte de sua vida. As ruas estavam muito mal-iluminadas e ele pressentia um assalto mas, surpreendentemente, chegou até a esquina de onde havia estacionado sem nenhuma abordagem anormal. Até que chegou ao local aonde, tinha certeza, havia estacionado seu carro e, bem, ele não estava lá. Suspirou triste e pensou:
"faz sentido. Fazem dois meses que não sou assaltado. Ainda bem que não paguei nada naquele carro..."
Fitou mais uma vez a vaga vazia, como que para se convencer da não-presença de seu carro, agora não tão seu, e foi caminhando tristemente até o ponto de ônibus. Claro, não sem ser abordado três vezes por pessoas estranhas, sendo assaltado em duas dessas, e tendo que, ao chegar ao ponto, implorar ao motorista e ao cobrador para o levarem. O que, na verdade não deu certo. Andou metade do caminho até o seu prédio, para só então lembrar que as chaves da porta haviam ficado no carro. O porteiro o deixou entrar e ele, muito humildemente, pediu ao porteiro que o emprestasse seu cobertor. O porteiro, muito comovido pela história, emprestou, e o nosso publicitário, muito tristemente, dormiu no tapete em frente a sua porta. De novo.
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