terça-feira, 1 de novembro de 2011

Um cara sem sorte - Capítulo 1

Era um homem alto e careca, forte. Andava quase correndo, ou corria quase andando, tanto faz. De qualquer forma, o fazia com certo nervosismo. A tensão era evidente nos seu olhos inquietos, que buscavam qualquer sinal de perigo. Vinha subindo a rua e não parava de olhar para trás e para os lados. Parou frente a um carro, não muito novo, e novamente observou a situação ao seu redor. Haviam poucas pessoas na rua, afinal já eram quase onze horas da noite, e aquele bairro não era dos mais seguros. Estava mexendo na maçaneta da porta do carro quando, de longe, avistou três homens vestidos de preto, correndo em sua direção. Decidiu que não era hora para sutilezas: tirou a camisa, amarrou no punho e quebrou a janela do carro. Entrou sem se preocupar com os caquinhos de vidro que rasgavam sua pele e sentou no banco do motorista. Muito habilmente fez ligação direta e, o mais rápido que pôde, saiu dali, com os tiros voando em direção ao veículo. Mas essa história não é sobre esse homem careca e forte, a perseguição subsequente a essa fuga ou ao tiroteio que, posteriormente, tiraria a vida de dois dos homens de preto e deixaria cego o homem careca e forte. Essa história é sobre o infeliz dono do carro subtraído para os fins de fuga.

Era um homem não muito alto nem muito baixo. Não era forte nem era fraco, também. Tinha olheiras, cara de resignação e cabelos bagunçados. Parecia ter mais ou menos 30 anos. Ficara até tarde trabalhando no escritório de publicidade, no qual trabalhava a entediantes 8 anos, porque todos tinham algo a fazer aquela noite. O seu chefe tinha um jantar com a mulher, qual delas ele não sabia; o designer tinha uma festa para organizar; a secretária tinha que sair com sua namorada e o estagiário, até esse, tinha que fazer alguma coisa, o que não importa muito, afinal era um estagiário. Até o homem careca e forte tinha que fazer algo, que era basicamente correr por aí com o carro alheio. Carro alheio do nosso publicitário aqui, mas obviamente ele ainda não sabia disso. Trancou a porta do escritório, suspirou profundamente, resignado por ser o capacho de todos. Foi andando os dois quarteirões que o separavam de seu carro, que ganhara num jogo de poker certa vez; único lance de sorte de sua vida. As ruas estavam muito mal-iluminadas e ele pressentia um assalto mas, surpreendentemente, chegou até a esquina de onde havia estacionado sem nenhuma abordagem anormal. Até que chegou ao local aonde, tinha certeza, havia estacionado seu carro e, bem, ele não estava lá. Suspirou triste e pensou:
"faz sentido. Fazem dois meses que não sou assaltado. Ainda bem que não paguei nada naquele carro..."
Fitou mais uma vez a vaga vazia, como que para se convencer da não-presença de seu carro, agora não tão seu, e foi caminhando tristemente até o ponto de ônibus. Claro, não sem ser abordado três vezes por pessoas estranhas, sendo assaltado em duas dessas, e tendo que, ao chegar ao ponto, implorar ao motorista e ao cobrador para o levarem. O que, na verdade não deu certo. Andou metade do caminho até o seu prédio, para só então lembrar que as chaves da porta haviam ficado no carro. O porteiro o deixou entrar e ele, muito humildemente, pediu ao porteiro que o emprestasse seu cobertor. O porteiro, muito comovido pela história, emprestou, e o nosso publicitário, muito tristemente, dormiu no tapete em frente a sua porta. De novo.

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