quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Um cara sem sorte - Capítulo 2

O publicitário, enfim, acordou. Não assim, desse jeito. Acordou com uma caixa que do alto de uma pilha de outras caixas despencou sobre ele. Mais especificamente sobre sua cabeça. Olhou em volta atordoado, procurando reconhecer o local a sua volta. Reconheceu a porta de seu apartamento. O sono ainda tomava conta de sua pessoa, e o motivo de estar do lado de fora, e não de dentro do seu apartamento ainda era um pouco misterioso. Massageou as têmporas enquanto se recostava pesadamente na sua porta. Lembrava-se agora do episódio. Voltara para casa a pé e tivera que dormir fora porque a chave de casa estava no carro, que estava sabe-se lá deus onde.
Olhou pro lado, aonde a caixa havia ido parar depois de esmagar sua cabeça, e olhou para a pilha de caixas. Pensou o que diabos aquilo estava fazendo ali, e lembrou-se, sem motivo aparente, que era domingo de manhã.
Levantou-se de forma "crocante". Seu corpo todo estralava, afinal dormira em posição fetal, no chão e no frio. Fez uma careta enquanto estralava, novamente, as costas. Era a segunda vez que dormia nessa mesma situação. Olhou a porta vizinha a sua e viu certa movimentação. Deu uma espiada; alguém parecia estar se mudando para lá. O elevador, então, chegou. A mulher que estava dentro até tentou sair mas, como sempre, a porta emperrou com um solavanco barulhento. Ela olhou um pouco assustada para fora e falou:
- Com licença moço, poderia me ajudar? Esse troço; já é a segunda vez que emperra comigo. Poderia me dar uma forcinha?
- Ah, hum, certo. Disse o publicitário, um pouco indiferente. Já estava acostumado com aquele elevador.
Demoraram um pouco para abrir o que faltava a força, principalmente porque o elevador insistia em tentar descer, mas enfim livraram-na daquilo. Ela se recompôs, se endireitou e sorriu. Falou:
- Muito obrigada. Devo supor que você seja o meu novo vizinho.
De fato era uma novidade para ele. Fez cara de esclarecimento e respondeu:
- Hum, sim, sim, suponho que sim.
Ela sorriu novamente e estendeu-lhe a mão; continuou:
- Então, prazer em conhecê-lo! Se não estiver muito ocupado, gostaria de me acompanhar no café-da-manhã? Digo, não em minha casa, não tem nada ainda. Mas, pelo que vi, tem uma padaria bem charmosa aqui na esquina. Eu pago! Como agradecimento por ter me livrado do elevador. Gostaria de me acompanhar? Não conheço ninguém nessa cidade ainda... Poderíamos conversar um pouco, sei lá.
Ele ponderou um pouco. Achou muito estranho; era muito simpática, muito... agradável! Mas não tinha muito o que fazer. Não tinha dinheiro e estava trancado para fora de casa, e com fome. Resolveu aceitar:
- Hum, certo. Pode ser interessante.
- Ótimo! Então só vou pegar minha bolsa. Espera um instante?
- Não vou a lugar algum sem você.
Disse ele, sorrindo. Involuntariamente, mas sorrindo. Era impossível não sorrir para ela; era uma moça linda. Ela sorriu de volta e foi para dentro, procurar a bolsa. Ele suspirou. Pressentia algo ruim para aquele domingo. Mais uma vez.

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