terça-feira, 22 de novembro de 2011

Um cara sem sorte - Capítulo 4

A primeira coisa que passou pela cabeça do publicitário foi: "O que diabos está acontecendo?". Ver o seu carro atravessando a fachada de uma padaria era, decerto, algo que ele não imaginava, tudo bem. Mas um careca forte com dois tapa-olhos segurando uma arma? Ok, essa foi demais. Decidiu que tinha que desmaiar, e foi exatamente isso que fez. Não sem bater na cabeça na mesa, como era de não se esperar.

O homem careca e forte olhou (?) em volta. Parecia procurar por algo. Caminhou por sobre os cacos de vidro, que estralavam à pressão do seu coturno. Foi em direção ao balcão; a atendente, assustada, se escondia, pateticamente, atrás da cadeira. O homem careca e forte deu um murro no balcão. Olhou (?) para a atendente e gritou:

- CADÊ A MANTEIGA!?
A atendente, tremendo, começou a chorar. O homem careca e forte repetiu:
- Manteiga, cadê a manteiga!?
Outra funcionária, aparentemente mais corajosa, trouxe, de braços cheios, umas dúzias de barras de manteiga. Postou-as sobre a bancada e, audaciosa, falou com o homem careca e forte:
- oitenta centavos cada barra, senhor.
O homem deu uma risada alta e olhou com desdém para ela. Com deboche, perguntou:
- Oitenta centavos? Cada?!
- Sim, senhor.
Respondeu a atendente. Ele fechou a cara e falou:
- Certo, me vê 10... Cê tem troco pra 50?

O publicitário acordou a tempo de assistir ao final da transação. O H.C.F (homem careca e forte) caminhou até o carro com a sacola cheia de barras de manteiga numa das mãos e a arma na outra. Jogou a sacola no banco, pela janela, entrou no carro e deu a partida. Antes de sair, gritou obscena e furiosamente:
- OBRIGADO!
E saiu cantando pneu de dentro da loja, batendo num carro que passava e derrubando uma messa com guarda-sol.

O publicitário levantou e foi em direção à Anna. Ela riu e, enquanto se recompunha, falava:
-Quem diria! Esse domingo tá animado, hein... Acabei de voltar e já está acontecendo mais coisas nesse final-de-semana do que nos últimos três meses.

A padaria, aos poucos, retomava o ar cotidiano, ou pelo menos ele achava, afinal era a primeira vez que ia ali. O padeiro gritava lá de dentro, reclamando com os funcionários, como o publicitário imaginou que fosse de costume. Ele coçou a cabeça e propôs:
- Que tal voltarmos? Já foi emoção demais pra um café-da manhã...
- Calma, tenho que pedir algo antes. E ainda não comemos... Mas eu vou pedir algo pra levar.

Ela rapidamente pegou alguns croissants, café e algumas outras coisas que ele, não prestando atenção, não identificou. Ele, curioso, perguntou:
- Ora, mas é coisa demais para você comer sozinha, não?
- Certamente. Mas minha namorada já deve estar acordando, a essa hora...
Ele assustou-se. Novamente curioso, perguntou:
- Mas... a essa hora? Meu deus, se eu pudesse dormiria o máximo possível... Vocês, lésbicas, são estranhas. Enfim, vamos...
Ela riu:
- Você parece um pouco desconcertado. Bem, então vamos...

Seguiram até a portaria e ele, subitamente, lembrou-se de que não tinha como entrar em seu apartamento:
- Anna, tenho que, hm, resolver um probleminha. Nos veremos. Foi ótimo conhecê-la.
- Ah, ok. Bem, nos veremos mais tarde. Até te apresento à Júlia!
Ela subiu e ele saiu. Foi para o chaveiro, que o conhecia de sempre. Era cliente antigo. Afinal, era um homem sem sorte...

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