segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Confissões

Era madrugada de terça-feira, não muito tarde. Ele estava sentado, pensativo, em frente ao computador. O tédio de praxe já nem fazia diferença. Perseguia a inspiração com todas as forças, mas essa lhe fugia como que por magnetismo, repelida. Pelo menos não estava calor demais para lhe forçar a ir até o quintal, nem frio demais para lhe mandar direto para debaixo das cobertas.
Seu pensamento vagava em torno de basicamente uma coisa apenas: Victória (outra coisa que já era de praxe mas estava longe de não fazer diferença). A separação experimentada há tão pouco ainda amargava sua boca de saudades, inda mais com a mensagem súbita que recebera dela, nas altas horas do sábado. Dizia apenas "eu te amo", mas nunca três palavras o fizeram mais feliz. Talvez tanto quanto, quando ouvia "vai ser open-bar", mas isso não vem ao caso. A questão é que quando recebeu a mensagem, levou um soco de saudade no meio do estômago, o que de fato doía. Na ocasião, de fato pensou em chorar, afinal as lágrimas levam embora consigo boa parte da dor, mas resolveu se segurar. Chorar dá sono e ele ainda precisava terminar de ler um livro. Agora, a saudade batia apenas como um eco da saudade que havia sentido no sábado, mas ainda assim bastava para direcionar boa parte de seus pensamentos a ela. Ainda que estivesse com a cabeça cheia, a maior parte era preenchida pelas saudades e pelo tédio. Sem falar na angústia existencial, tão comum a todo o mundo, na verdade. O que de fato o preocupava era como resolveria sua relação com sua garota. Era uma relação bem complicada, no mínimo tensa e no máximo prometia um mês de trégua, sem mágoas. Não que ele se preocupasse em se magoar; ele sempre engolia a mágoa e a aceitava (Victória) de volta. Um pouco indigno, alguns dirão, e podem estar certos, mas ele fazia isso porque a amava mesmo, e sabia que ela precisava dele. Ela precisava de alguém que pudesse aceitá-la quando ninguém mais pudesse. Em relação à mágoa, a única coisa que o preocupava era que ela se magoasse. Ele sabia que tinha forças para arcar com a mágoa. Ela, ele já não tinha certeza. Mas talvez fizesse mais por egoísmo mesmo. Precisava dela. Precisava sentir ou achar que alguém precisava dele; queria cuidar de alguém, fazer-se necessário. Todos somos assim. Ele, você, eu, nós. O mundo. Carência, basicamente. A carência move o mundo...

2 comentários:

  1. Matheus ,adorei o conto! A descrição me pareceu bem Machadiana...Lembrei-me de Bentinho descrevendo Capitu e as sensações que ela causava...

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  2. Ah, obrigado, haha :D Não mereço nem de longe a honra de ser assemelhado a Machado... ^^

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